Publicado por: yogaparagestantes | 27/10/2009

Obstetrícia: Tipos e características de partos

É comum encontrarmos artigos, ou mesmo cursos de preparação para gestantes, focados na questão dos “tipos de parto”, que geralmente acabam classificados da seguinte forma:

  • Parto Normal
  • Parto Vaginal;
  • Parto Natural;
  • Parto Fórceps;
  • Parto de Cócoras;
  • Parto na Água;
  • Parto Humanizado;
  • Parto sem Dor;
  • Parto Leboyer;
  • Cesariana (ou cesárea).

 

Em primeiro lugar, devemos pensar o seguinte: é possível classificar partos antes deles acontecerem?

 

Em segundo lugar, mesmo que fosse possível, é coerente achar que partos, nascimentos, bebês, mulheres possam ser classificados por tipos?

 

Vamos fazer um balanço histórico da obstetrícia, para entender porquê e como os partos foram classificados.

 

A separação dos partos por tipos aconteceu em decorrência do nosso sistema obstétrico. Desde que o atendimento passou a ser hospitalar, feito exclusivamente pelos médicos, em macas horizontais, com as mulheres em posição ginecológica, a classificação ficou óbvia: “Parto Normal” ou “Cesariana”. Não havia alternativa. Se a mulher não conseguia dar à luz nessas condições padronizadas, ia para a cesárea.

 

Eventualmente o parto ficava difícil e havia a aplicação do fórceps alto (um instrumento que consiste de um par de colheres metálicas), que buscava a cabeça do bebê no canal de parto para puxá-lo para fora. Essas experiências eram traumáticas para a mãe e com freqüência lesavam irreversivelmente o bebê. Era o “Parto Fórceps” ou ainda “Parto a Ferro”. Hoje em dia caiu em desuso e os médicos agora usam o “fórceps de alívio”, quando o bebê já está mais baixo no canal de parto, ou o “fórceps de rotação”, quando o bebê precisa de ajuda para rodar. Usado com parcimônia seria um excelente recurso para acelerar o período expulsivo em casos de emergência ou sofrimento fetal, lembrando que estas são ocorrências extremamente raras em partos de baixo risco. O uso rotineiro é desconselhado, o que vale para qualquer intervenção médica em um processo natural e fisiológico.

 

A partir da década de 70 o mundo inteiro testemunhou inúmeros movimentos pelo resgate do parto como um evento social, afetivo e familiar. Aqui e ali surgiram obstetras preocupados com o excesso de medicalização e grupos de mulheres que lutavam por melhores condições para terem seus bebês.

 

Na França, Leboyer foi um dos expoentes desse movimento e advogou uma forma mais amena de se nascer: pouca luz, silêncio, sem violência, banho do bebê perto da mãe, amamentação precoce. No entanto seu foco era o bebê, não a mulher. Geralmente esta estava deitada de costas, pernas em estribos e o uso da episiotomia era rotina. De qualquer forma, por seu pioneirismo, pela qualidade de nascimento oferecida ao bebê – mais do que pela qualidade de experiência de parto oferecida à mãe – no mundo inteiro esses partos ficaram conhecidos por “Parto Leboyer”.

 

Ainda na França, na cidade de Pithiviers, Michel Odent, entre várias inovações dignas de mérito, começou a usar banheira com água quente para o conforto das parturientes. De lá para cá, o “Parto na Água” tem sido utilizado no mundo inteiro, em banheiras especiais ou improvisadas. Nas maternidades européias as banheiras são oferecidas às parturientes tanto para o alívio das dores do trabalho de parto, como para o parto em si. Estudos científicos comprovam que o uso da água quente no trabalho de parto é um excelente coadjuvante no combate à tensão e à dor. No Brasil pouquíssimas clínicas e médicos oferecem esse conforto às parturientes, infelizmente.

 

Onde havia liberdade para movimentação das mulheres, o “Parto de Cócoras” ganhou terreno, por ser mais rápido, mais cômodo para a mulher e mais saudável para o bebê, pois não se produzia mais a compressão de importantes vasos sanguíneos, o que acontece com a mulher deitada de costas. No Brasil o Dr. Moysés Paciornik estudou comunidades indígenas e resgatou o parto verticalizado. Criou com seu filho Dr. Cláudio Paciornik uma cadeira para ser usada em hospitais, que permitia várias posições para a mãe, sem comprometer o conforto do médico. Embora não haja necessidade de cadeiras especiais para que a mulher assuma essa posição, muitos profissionais afirmam que não fazem partos de cócoras porque no hospital não existe “a cadeira para parto de cócoras” à disposição.

 

Desde os anos 80, com a popularização das questões ecológicas, e com os movimentos de resgate de uma vida mais saudável, natural e espiritualizada, muitas mulheres passaram a optar pelo “Parto Natural”, sem intervenções, sem anestesia e domiciliar em muitos casos. No entanto o termo “Parto Natural” muitas vezes tem sido utilizado como sinônimo de “Parto Vaginal”, o que nem sempre é verdadeiro. Um parto vaginal com episiotomia, rompimento artificial da bolsa d’água, aceleração com soro, anestesia, raspagem dos pêlos, entre outras intervenções, não pode ser classificado com o nome de “Parto Natural”.

 

O termo “Parto Sem Dor” tem várias conotações. Os métodos psicoprofiláticos desenvolvidos especialmente nos Estados Unidos propunham uma espécie de treinamento às gestantes, baseado em técnicas respiratórias, de relaxamento, de concentração, entre outas. A idéia geral é que uma mulher bem preparada para o parto e bem acompanhada durante todo o processo terá muito menos dor do que uma mulher assustada e tensa. A idéia faz sentido, mas convém lembrar que a dor do parto continua existindo, agora sem o sofrimento causado por medo e tensão. Os métodos mais conhecidos são Bradley, Lamaze e Hipnobirth.

 

No Brasil “Parto Sem Dor” é comumente confundido com parto sob anestesia. Obviamente a anestesia bloqueia a dor, mas também diminui as sensações das pernas e do assoalho pélvico. Essas sensações são responsáveis pela força que a mulher faz na hora de “empurrar” o bebê para fora. Portanto, embora haja o bloqueio a dor, alguns efeitos indesejáveis como a perda do controle sobre o processo do parto, entre outros, podem ocorrer. Em muitos serviços médicos a anestesia é aplicada no final do trabalho de parto, já no período expulsivo, de modo que o período de dilatação não se passa sob efeito das drogas anestésicas. De qualquer modo, as formas naturais de se lidar com a dor deveriam ser largamente oferecidos e utilizados antes que sejam aplicados os métodos farmacológicos de bloqueio da dor.

 

Atualmente um novo termo tem sido utilizado: “Parto Humanizado”. Como não houve uma formal definição do termo, ele é usado em todo tipo de circunstância. Para o Ministério da Saúde, parto humanizado significa o direito que toda gestante tem de passar por pelo menos 6 consultas de pré-natal e ter sua vaga garantida em um hospital na hora do parto. Para um grupo de médicos, significa permitir que o bebê fique sobre a barriga da mãe por alguns minutos após o parto, antes de ser levado para o berçário. Em alguns hospitais públicos significa salas de partos individuais, a presença de um acompanhante, alojamento conjunto, incentivo à amamentação, entre outros benefícios.

 

No mundo inteiro, no entanto, o que está se discutindo é: “o atendimento centrado na mulher”. Isso deveria ser o correto significado de parto humanizado. Se a mulher vai escolher dar à luz de cócoras ou na água, quanto tempo ela vai querer ficar com o bebê no colo após seu nascimento, quem vai estar em sua companhia, se ela vai querer se alimentar e beber líquidos, todas essas decisões deverão ser tomadas por ela, protagonista de seu próprio parto e dona de seu corpo. São as decisões informadas e baseadas em evidências científicas.

 

Enquanto as mulheres não reivindicarem seus direitos, enquanto as decisões couberem somente aos profissionais prestadores de serviços médicos, aos hospitais que elas escolherem, à diretoria que cria as condições de atendimento, enfim, enquanto deixar que os outros cuidem do que é das mulheres, os “tipos de parto” fazem sentido. É a classificação dos partos que serão permitidos ou oferecidos de acordo com as necessidades, conveniências e crenças de outros.

 

Fonte: Lista de discussão PartoNosso.

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